Seguir por Email

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Judaismo - Sempre gostei dos Pobres*







Sempre gostei dos pobres  (1). Nunca entendi e nunca pensei sobre o porquê de tal simpatia. Não tinha necessidade de compreender. Só gostava!
É verdade que cresci sem o jugo do preconceito, pois compartilhei desde tenra idade dias inteiros de ricas brincadeiras com os filhos dos caseiros e das empregadas que trabalhavam com nossa família.
De uns anos para cá comecei a me interessar pelos moradores de rua e por isso houve meses em que poucos foram os dias nos quais não tirei fotos de pessoas em tais condições. Todas as fotos que tirei deles tem algum sentido para mim. Algumas os mostram felizes tomando sol ou conversando.  Outras os mostram entretidos lendo ou fazendo algum trabalho manual. Outras ainda os retratam dançando em calçadas movimentadas, contrastando com a bravura dos nossos heróicos executivos, preocupadíssimos em cumprir suas épicas missões.
Obviamente varias das fotos também os retratam em seus movimentos mais manjados, como as que os flagram procurando comida no lixo, pedindo esmolas ou pescando bitucas de cigarros.
Ontem, depois de refletir sobre o porquê de minha simpatia pelos menos abastados, fui tirar uma soneca. Quando estava a um passo de ser engolido por algum sonho, me veio a seguinte informação: Em hebraico a palavra usada para pobre é Ani e Rearranjando suas letras, temos a palavra Ain: Olho!
Os Olhos são as janelas da alma.
 Em português dizemos que os olhos são as janelas da alma. Em hebraico, ao invés de janelas, os olhos são vistos como a fonte de onde a alma se manifesta no mundo físico.
Essa idéia se expressa no fato de os dois, olho e fonte, compartilharem do mesmo nome: Ain.
Certamente olho e fonte também dividem o mesmo termo devido ao fato de o olho se transformar numa fonte de águas ao jorrar emoções no ato de chorar.

... E o pobre, onde é que fica ?
Qual a relação do pobre, Ani, com o olho, Ain e com a fonte, Ain ?
Com o passar dos anos tenho percebido em conversas ou em simples trocas de cumprimentos, uma grande resistência de vários de meus interlocutores “mais abastados” em travar contato visual.
Conversar ou cumprimentar alguém que desvia o olhar me faz saltar os olhos! É uma coisa que me incomoda bastante!
Por outro lado, quando os interlocutores são crianças pequenas ou pessoas oriundas de classes menos abastadas, parece que este déficit é menor.
Vejamos...Qual será a causa de tamanha deficiência? Trago aqui alguns olhares : )
(O diagnóstico é do Dr Aroldo, meu Psicoculista. Por isso amigos, perdoem a linguagem demasiadamente técnica:)
1 -Quanto maior a fartura material que um individuo possui, maior a incidência do Déficit de visão multifocal emocional, causando dificuldades em seu portador ao tentar focar os “vários pontos”, (varias pessoas), que habitam seu campo visual. (seu mundo).
2-Quanto maior a independência econômica, maior a incidência da ilusão óptica em seu portador de ser um gigante auto-suficiente em relação aos que o cercam, causando indiferença e até cegueira no que se refere à existência destes.
3-Quanto maior o materialismo, maior a miopia e menor o astigmatismo emocional, limitando o olhar de seu portador ao que está próximo e embaçando sua visão em relação ao que está distante. (dependendo do grau desta miopia, os distantes podem ser seus próprios cônjuges, pais, filhos ou irmãos).
(Até aqui o diagóstico de meu Psicoculista Aroldo.)
Para o pobre, porem, a necessidade trás a rica percepção da unidade que jaz por trás da diversidade, pois faz ele enxergar no outro uma extensão de si mesmo, porquanto dele carece a sua existência.  
Portanto, não raras vezes vemos pessoas carentes agindo de modo solidário e até mesmo repartindo o pouco que tem com pessoas todavia mais miseráveis.
A autenticidade do Olhar!
Nos salmos nos referimos ao apelo e à comunicação que existe no olhar:
“Como os olhos dos servos na direção do seu Senhor e como os olhos da serva na direção de sua senhora. Assim são nossos olhos para o Senhor nosso Deus até que se apiede de nós.”
Por que o salmo se refere ao olhar como fonte de apelo e não à fala?
Por que a fala pode ser forjada, falsificada. O olhar, porem é mais difícil de ser disfarçado, pois é...  A JANELA DA ALMA!
Depois dessas considerações, me parece ter encontrado a fonte de tal simpatia pelos menos abastados: Autenticidade, empatia, foco, troca....OLHAR!
P.S.
Neste exato momento lhes escrevo do meu notebook que acabo de “resgatar” de um bar onde o havia esquecido, a uma quadra de onde estou agora, no coração da favela de Heliópolis...
O pagamento pelo resgate ? Uma frase: “Deixei uma mochila aqui...”
O lugar de onde lhes escrevo ? Cine Favela... focado por um monte de câmeras e retratado numa de tela.
No meio de gente que sabe...  olhar!



*(Uso essa palavra somente por questão de efeito no texto, porque a verdadeira pobreza e a verdadeira riqueza não tem nada a ver com o dinheiro!)
Este texto é dedicado a minha esposa Jacque Ventura, que tem o mais autentico e lindo olhar!

9 comentários:

sureide disse...

Amei Mores, vc e um ser especial, obg. por fazer parte dos meus amigos virtuais do face.

Daniele Harley disse...

Excelente moré!!!Vocé é uma pessoa de um grande coração e principalmente de grandes atitudes, parabéns!

More Ventura disse...

Sureide e Daniele, muito obrigado! Eu agradeço os elogios e a leitura!
Espero que vocês sigam sempre acompanhando e contribuindo com seus comentarios !
Shalom!!!

LENA ANTABI disse...

Adorei tudo,a sua visita a conversa com esse nobre morador da favela e principalmente seus valores devidos e corretos ao que se refere a POBREZA & RIQUEZA...Precisamos de mais VENTURAS,dando EXEMPLO para todos jovens,velhos e crianças...Gratidão professor...Lena Antabi

More Ventura disse...

Cara Amiga Lena. Agradeço muito o elogio, me deixa muito contente!
Sabe amiga, estes valores aprendi convivendo com varias pessoas especiais, de realidades sociais, países e religiões diferentes, mas com uma coisa em comum: A percepção de que a maior riqueza existente na face da terra reside no próprio ser humano!
Vamos em frente Lena! Muita benção, muita Luz!

Patty Esther disse...

Pôxa, que maravilha de texto, espero que muitos tenham lido e que muitos reflitam tbm. Parabéns Morê!

Anônimo disse...

sei bem o que vc escreveu,nessa não preciso nem imaginar,ja sai muito pelas ruas na madrugada,e tambem onde trabalhava lidava com pessoas nas ruas,mais preocupada em tira-los dos bancos da praia,quase nunca parava para conversar preocupada ,em retira-los do local pois os turista,se incomodavam com sua presença,um dia sai as ruas na madrugada e tive pelas experiencias,encontrei pessoas alegres e aprendi muito com eles,voltei para casa chorando muito pois, nunca tinha sequer olhado nós olhos desta pesoas,pois estava preocupada só comigoe com meu serviço e ainda me achava desfortunada,pedi perdão Hashem pois vi o quanto era ingrata com o Criador e só olhava para mim mesma e meus problemas .hoje meu olhar e outro.linda esta historia more parabéns.há 18 minutos · CurtirCurtir (desfazer) · 1Carregando...

More Ventura disse...

Muito obrigado amiga! Seu comentario, realmente complementa este o meu relato. Pois alem de sentirmos uma empatia maior, tambem passamos a enxergar nossa propria situação de uma perspectiva diferente.Um grande abraço e Shalom!

Eduardo disse...

More Ventura
Parabéns pelo seu texto e sua empatia por aqueles que sofrem. A conexão pelo olhar revela o desejo da alma em entrar no universo do outro, pois percebe o poder que cada um de nós tem e que a grande maioria desconhece.
Um abraço
Eduardo