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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Meus irmãos trombadinhas...




Numa madrugada escura de inverno... as cinco e meia da manhã... de baixo do viaduto da Rebouças... Quem vocês acham que estava La?
-Pivetes? Pirilampos?
-Acertaram!
Numa madrugada escura de inverno... as cinco e meia da manhã... de baixo do viaduto da rebouças... vestido de terno e gravata, quipá na cabeça, segurando numa mão uma sacola com exame de urina e na outra o saco do Tfilin... Quem vocês acham que estava La?
-Um parvo e jovem rapaz, tomando um atalho para a sinagoga:
Eu!
Avistando os irmãos de rua,ou melhor de viaduto, cumprimentei:
-Oba!
-Opa! Aí... Nóis num vai fazê nada di mau cocê rapá! Nóis só que dinheru!
-É fica di boua aí, manu...
-Só trabaiâmu cum dinheru!
-Enquanto minha mente tentava entender o exótico dialeto usado pelos nobres mancebos, meu coração rapidamente compreendeu que seria melhor eu cair fora daquele recinto. Dito e feito: Saí correndo e em pouco tempo já me encontrava no.....
.....chão!
Com algumas feridas no braço e um arranhão no joelho olhei para os rapazes, que se mostraram muito interessados em meu “conteúdo”. Por mais que os observasse, era muito difícil definir sua aparência, pois em seus corpos que pareciam envolvidos por uma espécie de luz desfocada, não se percebia um começo ou um fim exato. Não que se tratassem de anjos ou de alguma espécie de seres espirituais, é que meus óculos tinham caído e naquela época eu sofria de miopia.
-I aí manu? Dinheru ou Cartãu?
-Já habituado ao novo dialeto respondi:
-Xéqui! – Não expliquei exatamente a localização, mas eu tinha uma folha de cheque em branco no bolso interno do meu paletó.
-Parece que diante da eminente perspectiva de enriquecimento os sentidos dos jovens empreendedores se entorpeceram, pois por mais que eu explicasse que não se tratava de um talão de cheques, mas de uma folha apenas, o líder da equipe insistia em ordenar a seus pupilos a buscarem um:
-Talão de cheque! Talão de cheque!
Minutos depois, ao serem flagrados pelo poderoso foco da lanterna do grande astro rei, os jovens empreendedores frustrados, decidiram encerrar o expediente. Foi quando um deles percebeu em minhas mãos uma lustrosa pasta de couro, que continha nada menos do que os meus tefilin, os filactérios usados na oração da manhã:
-Pega a sacola! A sacola de couro!
Naquele momento vi a minha pasta de couro sendo passada de mão em mão numa eficiente fila indiana. Em questão de segundos ela já estava a cem metros.
O que eu poderia fazer? Alem de ficar sem os meus tfilin, em pouco tempo aqueles sagrados objetos estariam compartilhando com detritos abjetos alguma lata de lixo num canto qualquer da cidade.
Mas... Alem de larápios, trombadinhas, pirilampos, pivetes, ladrõezinhos e outras definições mais, não seriam aqueles meninos simples seres humanos?
 Claro que sim – Respondi a mim mesmo - E portanto eu poderia apelar à voz de sua consciência:
-Ei! Isso que vocês estão levando no saco é coisa “di rezá”, é coisa “di Deus”!
-Devolvi o sacu pa u moçu, é di Deus, é di rezá” – Disse o chefe!
-É di rezá!
-É di Deus!
Em questão de segundos meus tefilin estavam de volta, são e salvos!
Naquele momento constatei algo muito dificil de percebermos na sociedade preconceituosa e “Apartheidiana” em que vivemos:
Na superfície ou no fundo somos todos Seres humanos...
Quando os “indefiníveis”rapazes já estavam se retirando, tentei apelar novamente a seu “instinto humano”:
-Ei – Gritei – Como é que eu vou sair daqui ? Estou sem os meus óculos e desse jeito eu não enxergo nada!
Naquele momento uma daquelas figuras “indefiníveis”, afastou-se de seu bando e veio me socorrer. Minutos depois, já se voltando para o resto da réstia, o menino disse:
-Ô! Discupa aí manu. Axei seu zóculu não!
Voluntariamente continuei ali sentado por mais alguns minutos, apreciando aquele momento único no qual minha visão indefinida se mostrou a mais adequada para enxergar a indefinível essência do ser “u mâno”.


Ps: "O amor ao próximo não deve ser encarado como uma concessão mas sim como uma constatação!"
More Ventura!

6 comentários:

Anônimo disse...

que experiência impar vc teve...poxasempre podemos achar algo de humano nos humanos pór mais desumanizados que os mesmos estejam.entretanto prudência é bom e não faz mal a ninguém.a sorte o ajudou mas poderia ter acontecido algo de mais grave sem dúvida...

More Ventura disse...

É verdade amigo! Esta história aconteceu quando eu tinha uns 20 anos... era bem descuidado mesmo!

Anônimo disse...

EU SEMPRE ACREDITEI QUE NO MEIO DE PESSOAS RUINS TEM PESSOAS QUE SE DESTACAM POR SEREM MENOS RUINS.

JULIO ATINA

Vítor Carvalho Ferolla disse...

Caramba, q história interessante!

Martha Alaíde disse...

Não fosse trágico, seria cômico.

Ainda bem que "u mânu" entendeu a diferença entre o sacro e o secular. Todá, manu !

Jacque esposa disse...

Pois é moré, nós estavamos gravidos do nosso primeiro filho, e vc me aparece todo engessado,arranhado, dizendo q foi atropelado, lembra?!?! Pois foi atropelado pela vida!!!agora É so passar gelo!! Seu bem É meu bem!!